Vale o caminho mais difícil

Por Rafael Araujo (*)

Iniciamos hoje a temporada 2017 do Meu Vizinho Pardini, projeto cultural gerido pela Árvore, viabilizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura e patrocinado pelo Hermes Pardini. Começamos muito bem: bom público, atrações qualificadas, pessoas convivendo em harmonia, acessibilidade. Tudo que um evento precisa e as pessoas merecem.

Trabalho com eventos há 20 anos. Pude participar, como produtor e assessor de imprensa, de iniciativas memoráveis. Shows para dezenas de milhares de pessoas, exposições grandiosas, festivais com centenas de atrações. Quando olho para o Festival Cultural Meu Vizinho Pardini de hoje, penso: como nossa equipe pode ter ficado tão cansada com a realização de um evento tão simples? E ainda: por que estou tão orgulhoso pela realização de um evento pequeno se já fiz outros bem maiores?

A resposta para as duas perguntas, nem sempre fácil de visualizar, está justamente na essência da Árvore. Nunca escolhemos os caminhos mais fáceis e sempre buscamos fazer conexões.

Faz mais de um ano que colhemos ideias para o evento no Belvedere. Há três meses começaram os primeiros desenhos formais: programação, infraestrutura, plano de mídia. Poderíamos simplesmente buscar autorização na prefeitura, no Corpo de Bombeiros e entidades locais, contratar tudo, divulgar, realizar o evento e ir embora… Mas tudo aquilo é feito para os vizinhos. O evento é para eles, não para nós. E o que eles querem? Será que eles querem?

Foi isso que perguntamos à Associação dos Amigos do Belvedere e ao Jornal do Belvedere, há 40 dias. Levamos uma proposta que foi modificada a partir de sugestão de pessoas totalmente vinculadas ao público do evento. Mudamos a data, a estrutura, o mobiliário, o tom das atrações, a forma de comunicar; enfim, mudamos tudo. E valeu a pena.

Crédito: Léo Lara

Na verdade, construímos COM quem interessava. Levamos o Giramundo e o circo da Trupe Gaia para as crianças. Logo depois, o violão de Gilvan de Oliveira e o sax de Chico Amaral fizeram nosso sábado bem mais gostoso. Em suas bandas, estavam parte da boa safra da música instrumental mineira. Da plateia, quem os conhecia reconheceu esse valor; outros, simplesmente sentiram pelos ouvidos. Opa, formação de plateia!

Na divulgação, visitamos todas as lojas e prédios do entorno. Nem sempre fomos atendidos como gostaríamos, mas vimos um bom volume de sorrisos. Desse trabalho, parcerias nos foram propostas. “Podemos montar uma área infantil”?, perguntou a Cultura Inglesa. Por que não? “Poderiam receber a exposição de artistas plásticos do bairro”? Claro! “Posso somente distribuir panfletos da minha loja”? Melhor não.

Outro segredo do Meu Vizinho Pardini é a relação com fornecedores. Um dia antes, fizemos uma reunião com todo mundo para explicar o sentido daquele evento. Não era simplesmente um som, um palco, uma foodbike. Era um conceito que gostaríamos de passar para aquela comunidade, em que cada um é responsável pelo espetáculo. Escolhemos os técnicos competentes – com conhecimento, habilidade e atitude – e não tivemos nenhum problema. Um senhor tropeçou no meio-fio. Na mesma hora, foram acolhê-lo a produtora, o segurança e o técnico de som. É um sinal. E um bom sinal.

Para terminar a lista de causas do sucesso do evento, não posso deixar de reconhecer a confiança de nosso patrocinador, o Hermes Pardini. Da presidência, diretoria e gerência de Marketing, que acreditaram no projeto desde o primeiro momento, aos atendentes, colhedores, manobristas e toda a equipe de Atendimento da Unidade – todos convidaram o público movidos pelo sentimento de pertencimento. Engajamento é a maior visibilidade para uma marca de saúde. Fica na mente e no coração.

Contei essa história toda pra voltar ao título desse artigo. Em todas as etapas da produção do evento – da concepção à realização – buscamos os caminhos que conectassem mais pessoas e organizações, reforçando a essência do projeto, que é justamente voltado para a vizinhança. Deu trabalho, foi desgastante, teve momentos de estresse, mas foi recompensador. Gastamos bem mais energia que a produção de um evento com porte maior, talvez, mas certamente deixamos nossa marca naquela comunidade. De uma das pessoas que nos questionaram sobre a compatibilidade para realizar o evento, há dois meses, ouvimos hoje um sonoro “vocês cuidaram muito bem do nosso bairro”. É isso que vale.

Encerramos o evento do Belvedere e já estamos com outros sete em fase de pré-produção. Sete comunidades diferentes, com realidades diferentes; sete desafios pra gente e um montão de histórias para serem escritas. É a energia que nos move para fazer tudo isso.

(*) Rafael Araujo é jornalista e especialista em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral. Fundador e Diretor Executivo da Árvore Gestão de Relacionamento. #aquitemarvore

Receba tudo no seu email! Prometemos não enviar spam!

Confira também

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *