Um CNPJ vale muito mais do que um CPF

Deu no jornal: fazia calor em Belo Horizonte e a moça resolveu dormir com a janela do apartamento aberta. Ao acordar, percebeu que o operário, trabalhando na obra do prédio ao lado, não só a admirava como gravava a intimidade do seu sono no celular. A moça em questão é profissional de comunicação e não deixou barato. Fez um post nas redes sociais e o negócio viralizou.

É claro que virou pauta na imprensa. Nutridos pela repercussão nas redes sociais, muitos veículos queriam repercutir o fato. Saber quem era o operário, se ele seria demitido, o que provocou tal atitude etc. etc. etc. Como na maioria das vezes, a imprensa busca um culpado. E, para culpado, um CNPJ vale muito mais que um CPF.

A reportagem de O Tempo logo chegou ao supervisor da obra. Queria explicações para o inexplicável (a safadeza humana e a falta de privacidade). O engenheiro, que tem como foco de trabalho a gestão da obra – plantas, concreto, vigas etc. – colocou o assunto do tamanho que deu conta. Disse o que quis e ganhou as páginas do jornal. Era tudo que a mídia precisava e a opinião pública não esperava ouvir.

Ao ler a matéria, lembrei das inúmeras vezes em que já me vi cercado de mal-entendidos, onde não se sabe como aquilo começou, tampouco onde vai terminar. Tento imaginar como foi a cena da entrevista: o repórter foi até a obra, mandou chamar o responsável. O engenheiro atendeu de pronto (se é forte o bastante para construir um prédio, atender a um jornalista – que não é de TV – é fichinha!). Deu sua opinião: o fato estava exagerado e a moça deveria ter fechado a janela para evitar que isso acontecesse. Ao final, percebendo que o repórter franzino tinha virado um inquisidor, pode ter concluído que havia falado demais e não quis se identificar.

Do ponto de vista da Comunicação Corporativa, fico com dois questionamentos principais:

Alguém foi pedir desculpas à vizinha?

Algumas empresas de engenharia já estão entendendo que relacionamento com a vizinhança não é mais uma questão de gentileza urbana, mas condição para manutenção da obra. Tenho certeza de que a moça, ainda que revoltada, se sentiria respeitada e acolhida caso alguém lhe pedisse desculpas em nome da empresa e do profissional, reforçando medidas que impediriam a recorrência de situações como essa. Por isso a importância do suporte de profissionais com outras expertises e que possam integrar a equipe da obra com foco na gestão dos impactos sociais em seu entorno.

Onde estava a assessoria de imprensa da construtora?

Não sei qual é a construtora em questão, mas se estiver entre as principais da cidade, certamente tem assessoria de imprensa. A ausência da condução profissional do caso foi sentida na matéria. Fato é que, enquanto a cultura for de acionar a assessoria depois que o estrago já está feito ou depois que a imprensa já tiver concluído sua apuração, pouca coisa pode ser feita. Para aprendizado: se algo semelhante acontecer com você ou sua empresa, antes de constatar que você virou um caso negativo nas redes sociais, contate a assessoria de imprensa. No mínimo, você receberá orientações de procedimentos que poderão reduzir a exposição pública, evitando perda de reputação profissional, empresarial e do segmento de sua atuação.

No caso em questão, ainda que tardiamente, estas medidas podem até ter se efetivado. Afinal, o assunto morreu. Mas vale um alerta às organizações: qualquer desvio de conduta, por menor que pareça, pode suscitar uma crise. Cidadãos, hoje empoderados, imediatamente, recorrem às redes sociais como instrumento de justiça. A imprensa, ávida por cumprir seu papel, vai a campo e esbarra no despreparo de lideranças que não sabem como se posicionar. E tudo isso acontece em poucas horas. Então, contra crises, é sempre melhor estar preparado. O seu CNPJ precisa de proteção.

Veja a matéria do O Tempo em https://goo.gl/Ti5wns

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